Reportagens
Ensino agrotécnico: Epagri assume a educação da nova geração do agro catarinense
A Epagri virou escola. Numa iniciativa inédita no Brasil, a empresa do Governo de Santa Catarina responsável pela pesquisa agropecuária e extensão rural assumiu a missão de educar formalmente a próxima geração do agro.
Desde 2025, os jovens podem cursar o ensino médio gratuitamente na Epagri, em cinco Centros de Educação Profissional (Cedups Agrotécnicos), e, depois de 3 anos e meio, sair com um diploma de Técnico em Agropecuária. Mais recentemente, em 2026, a Empresa também assumiu a gestão das 11 Casas Familiares Rurais do Estado, começando a escrever um novo capítulo nessa história.

A mudança começou em fevereiro de 2025, quando a Epagri assumiu a gestão compartilhada, com a Secretaria de Estado da Educação, dos Cedups Agrotécnicos catarinenses. Foi o início de um cronograma de transferência gradual, que termina em 2028. As unidades que passaram a fazer parte da estrutura da Epagri estão localizadas em São Miguel do Oeste, Campo Erê, Canoinhas, Água Doce e São José do Cerrito.
Apesar do tamanho da mudança, educar não é novidade para a Epagri: ensinar está no DNA do extensionista, que faz a ponte entre as tecnologias e as famílias do campo e do mar, num processo de ensino não formal. A diferença é que, agora, a Empresa tem novas ferramentas para combater o êxodo rural e desenhar um futuro com profissionais ainda mais preparados para assumir as rédeas da produção agropecuária catarinense. A fronteira entre escola, campo e tecnologia nunca esteve tão livre.
Escolas-fazenda
Os Cedups têm cerca de 1,5 mil alunos de 13 a 16 anos que cursam, gratuitamente, em período integral, o ensino médio regular de forma concomitante com o técnico profissional. Em escolas-fazenda que somam quase 1 mil hectares de área, os alunos vivem o dia a dia do campo, alternando atividades em sala de aula e em laboratórios. O aprendizado acontece na teoria e na prática, abrangendo áreas como bovinocultura de corte e de leite, fruticultura, olericultura, produção de grãos, apicultura, piscicultura, avicultura, suinocultura, agroindústria e outras atividades agrícolas.


Entre os estudantes dos Cedups Agrotécnicos, a maior parte – cerca de 60% – é formada por filhos de agricultores. O presidente da Epagri, Dirceu Leite, conta que um avanço de 2025 foi o aumento da participação de jovens oriundos da agricultura familiar no ensino agrotécnico. A meta é ampliar ainda mais essa proporção e fortalecer a presença feminina nas escolas. “Esse é o caminho para renovar a agricultura catarinense com conhecimento, inovação e pertencimento”, afirma.
Bruno decidiu ficar
Construir o futuro no campo é o plano do estudante Bruno Facchin, de Ibicaré, que cresceu em uma propriedade rural e encontrou no Cedup Água Doce o conhecimento para seguir na atividade agrícola. Aos 17 anos, ele está cursando o terceiro ano do ensino médio. “É importante o colégio incentivar o filho do produtor a seguir na propriedade, porque hoje a maioria dos jovens está indo para a cidade. Escolhi o Cedup porque temos as matérias normais e as técnicas, e porque cria uma responsabilidade para, no futuro, a gente poder tocar a propriedade ou seguir nos estudos”, conta.

O objetivo de Bruno é, depois de formado, iniciar a ovinocultura de corte na propriedade, onde a família já trabalha com gado de corte e produção de milho. Com apoio da extensão rural da Epagri, ele está elaborando um projeto para buscar financiamento do Governo do Estado e colocar esse sonho em prática.
“O Bruno é um menino de espírito empreendedor bem aguçado. Ele tem muito claro isso, e gosta de estar em campo, com a mão na massa. É bem bacana a abertura que a família está dando pra ele e o espaço de discussão que a gente está conseguindo construir para encontrar equilíbrio entre os desejos do filho com o restante da família”, diz a extensionista rural Flávia Zucco.
Pesquisa, extensão e ensino
Um dos grandes ganhos que a Epagri levou para as escolas-fazenda em Santa Catarina foi a integração inédita com a bagagem de conhecimento da pesquisa agropecuária e da extensão rural.
Com a mudança, a extensão rural passou a permear a convivência dos jovens dentro da escola, com profissionais que os acompanham diariamente. Fora da sala de aula, e mesmo após a formatura, as equipes de extensionistas de cada município também acompanham as famílias dos alunos, oferecendo suporte técnico para implantar projetos de negócios nas propriedades com apoio das políticas públicas da Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (SAPE). Em 2025, foram mais de 4,1 mil ações de assistência técnica e extensão rural para os estudantes e suas famílias, em 137 municípios.

As tecnologias desenvolvidas nas pesquisas agropecuárias também entraram na rotina escolar. Variedades de plantas desenvolvidas pela Epagri, como tomate, milho, feijão e espécies frutíferas, estão sendo cultivadas nos Cedups e acompanhadas pelos estudantes. Usando metodologias já validadas pela pesquisa e pela extensão rural, a Epagri implantou Unidades de Referência Educativa (UREs) nas escolas, ampliando as possibilidades de aprendizado prático e a troca de experiências entre estudantes, docentes e técnicos.
Na hora de fazer o estágio de conclusão de curso, os estudantes têm a oportunidade de cumprir esse semestre de formação na Epagri. Eles podem estagiar nas estações experimentais, nos escritórios municipais de extensão rural e, até mesmo, nas propriedades de seus familiares, com o acompanhamento dos extensionistas.
“Se, depois de formado, o jovem atuar como técnico em agropecuária, seja na assistência para outras famílias, seja numa cooperativa, ele vai estar levando todo o conhecimento que tem da Epagri, as metodologias que nós desenvolvemos e tudo que contribuiu na formação dele. A ligação com a Epagri vai ser independente da atividade que ele estiver desenvolvendo”, diz a diretora Andreia.
Do aprendizado para a prática
Amanda Battistel, de Descanso, já concluiu o ensino médio no Cedup Getúlio Vargas, que fica em São Miguel do Oeste, e agora está realizando o estágio obrigatório em uma granja de suínos. “Eu amo o curso e, com certeza, é a área que vou seguir. O que mais gosto é da área animal no geral e também da parte de solos, grãos e mecanização”, resume.

A jovem de 18 anos tem aproveitado o aprendizado do curso para colocar em prática no dia a dia. “Tenho levado o conhecimento e implantado o máximo possível nas propriedades, como, por exemplo, a compostagem na parte olerícola, as podas e tratamentos em frutíferas, o paisagismo e a jardinagem, a inseminação artificial em tempo fixo e a implantação de dieta adequada nos bovinos, além da melhoria na gestão das atividades e na biosseguridade na granja avícola”, conta. Junto à Epagri, Amanda também fez um estágio extracurricular no projeto Giro da Safra, atuando na coleta e no processamento de amostras de milho da região.
Aos 18 anos, ela está em processo de transição para assumir a propriedade da própria família, que produz leite e grãos, e também a da família do noivo, Erick Cappelari, que produz leite e tem aviário. “Acho de suma importância o equilíbrio entre as gerações, pois ambas têm muito a somar”, defende.
Investir em educação
As transformações dos Cedups no primeiro ano de Epagri foram sustentadas por grandes investimentos. Em dez meses de gestão, a Epagri realizou mais de 50 licitações e destinou cerca de R$12 milhões para melhorias em infraestrutura e formação de professores. Os investimentos foram distribuídos em áreas variadas, como veículos, tratores, implementos e insumos, ração para os animais, sementes, material de limpeza e de higiene, entre outros.
Nesse período, cerca de 120 professores participaram de capacitações da Epagri. Foram cursos, oficinas e encontros voltados a metodologias inovadoras, uso de tecnologias no ensino agrícola, segurança alimentar, sustentabilidade e práticas de extensão.
Novo capítulo: Casas Familiares Rurais
A experiência com os Cedups foi a primeira etapa da expansão da Epagri como instituição de ensino. Em fevereiro de 2026, a Empresa assumiu também a gestão das 11 Casas Familiares Rurais de Santa Catarina, oferecendo aos alunos o mesmo suporte que já é oferecido nos Cedups. Essas instituições contam com cerca de 650 estudantes, e mais de 90% são filhos de agricultores.

O trabalho de sucessão familiar é muito forte nessas casas, que funcionam em regime de pedagogia de alternância, em que o estudante passa uma semana na escola e outra na propriedade da família, aplicando o que aprendeu em aula. As unidades estão localizadas em Armazém, Caibi, Guaraciaba, Iporã do Oeste, Modelo, Quilombo, Riqueza, São José do Cedro, Saudades, Seara e Xaxim.
Novo agricultor
Plantando sementes na formação de profissionais do agro desde muito cedo, a Epagri agora constrói as bases do perfil de um novo agricultor. Profissionais preparados, voltados para o conhecimento, a inovação, o empreendedorismo e a sustentabilidade vão dar o tom da agricultura catarinense nas próximas décadas.
De acordo com Andreia Meira, em um estado que cobre apenas 1% do território do país, o grande desafio da agricultura catarinense, para crescer, é melhorar a produtividade. “O que a gente tem visto como referência em países como Alemanha e França, é que o agricultor que fica na propriedade é aquele que está investindo muito em conhecimento, tecnologia, inovação e sustentabilidade. É nisso que nós estamos investindo, preparando a continuidade nas propriedades com um novo agricultor que inova, busca conhecimento, está qualificado, e isso vai elevar o nível em todas as áreas da economia catarinense”, destaca. Com a fronteira livre entre escola, campo e tecnologia, o terreno já está preparado para grandes colheitas.
Cinthia Andruchak Freitas – Jornalista