Reportagens
Família de Campos Novos revoluciona a produção de leite com apoio da Epagri
Tudo o que Darvilete e Jaime Siqueira tinham para sustentar a família em 2011 era uma propriedade em Campos Novos com oito vacas e pastagens que ficavam a 2km do local de ordenha. “As vacas sofriam muito para se deslocar, e nós também, para ir buscar elas. A produção era pouca, com média bem baixa, em torno de 8 a 10 litros por animal/dia. As pastagens eram anuais, aumentando os gastos com sementes e também a mão de obra para implantação”, lembra a agricultora Darvilete.
Quinze anos depois, a propriedade onde o casal vive com os filhos Jacson, de 21 anos, e Emanuelle, de 12 anos, é uma potência na produção de leite. A família se tornou referência e até inspiração para os produtores rurais de toda a região. Com um rebanho de 100 animais, sendo 52 vacas, a produção alcançou quase 300 mil litros em 2025.

A “mágica” da extensão rural
Essa história de trabalho, aprendizado e parceria começou a ser escrita em 2016, quando os extensionistas da Epagri entraram no caminho da família oferecendo assistência técnica gratuita, capacitações e apoio financeiro via políticas públicas. Em dez anos, foram mais de 100 atendimentos à família e dezenas de participações em seminários, viagens técnicas, dias de campo, reuniões técnicas e cursos continuados. Nesse período, a família acessou políticas públicas oito vezes, totalizando R$124.778,87 em apoio para investir na propriedade.
O casal começou as mudanças pela alimentação das vacas, implantando pastagens perenes – que não precisam ser plantadas todos os anos –, em um processo que se expande até hoje na propriedade. Eles aderiram ao sistema de produção de leite à base de pasto, que é difundido pela Epagri em todo o estado como o modelo mais rentável e sustentável para a agricultura familiar. Hoje, esse sistema já é usado em mais de 7 mil propriedades rurais, alcançando 92 mil hectares em Santa Catarina, garantindo pastagem em boa quantidade, bem-estar animal, alta produtividade e leite de qualidade.
Apoio financeiro
Em 2019, a família Siqueira acessou a primeira política pública. Com um projeto elaborado pela Epagri, eles conseguiram recursos do Programa Fomento Agro SC para construir uma sala de ordenha próxima à pastagem, acabando com o problema da distância que os animais precisavam percorrer.

No ano seguinte, a propriedade se tornou uma Unidade de Referência Técnica (URT) da Epagri – uma propriedade modelo que recebe visitas de outros produtores e sedia eventos para apresentar as tecnologias preconizadas pela Empresa. “Passamos a ter uma assistência muito mais ativa do técnico da Epagri, que vem contribuindo, orientando e planejando para que tudo ocorra da melhor forma possível. Também passamos a receber visitas de produtores que têm interesse em implantar esse mesmo sistema”, explica Jaime.
Com materiais adquiridos via programa Kit Forrageiras, da Secretaria de Agricultura e Pecuária, Jaime e Darvilete iniciaram, também, a implantação dos piquetes, dividindo a pastagem em áreas menores. Nessa época, também foi iniciado o controle leiteiro. “Essa técnica recomendada pela Epagri influenciou grandemente na melhoria da produtividade e na eficiência da utilização de ração concentrada para os animais de produção”, acrescenta o extensionista Ademilso Sitneski. Em 2020, a produção já alcançou 165 mil litros de leite, gerando uma renda bruta de R$300 mil para a família.
Com os piquetes construídos, faltava instalar um sistema de fornecimento de água para os animais – e isso a família executou com auxílio do programa Fomento Agro SC em 2021. Garantir água para o rebanho em todos os piquetes é uma das recomendações do modelo de produção da Epagri. Em sistema de rodízio, as vacas sempre têm um piquete com pasto novo e abundante, além de água à vontade.

Os investimentos seguiram a todo vapor, mas sempre com muito planejamento, para “não dar o passo maior que a perna”, como Darvilete faz questão de lembrar. Ainda em 2021, a família implantou um sistema de criação de bezerras, que trouxe grandes avanços na reposição e na melhoria das vacas da propriedade. Com recursos próprios, construiu um barracão para alimentação de 56 vacas. No ano seguinte, com orientação da Epagri, a família começou a plantar eucaliptos na área de pastagem para oferecer sombra e melhorar o bem-estar dos animais.
Estiagem e superação
Mas nem tudo foi fácil. Nessa época, a estiagem se agravou na região e, com o passar dos dias, começou a faltar água para o rebanho. “Foi bem tensa a situação de falta de água. A prefeitura trazia água para os animais e para limpeza das instalações”, lembra Jaime.
A parceria Epagri trouxe logo uma solução: com recursos do programa Prosolo e Água, a família construiu uma cisterna que coleta água da chuva com capacidade para 300 mil litros. “Com recursos próprios, também fizemos um poço artesiano”, acrescenta Jaime. Outra inovação foi a instalação de um sistema de geração de energia solar. Hoje, esse sistema traz economia para a família, já que os gastos com resfriadores e equipamentos de ordenha são altos na atividade leiteira.
Enquanto evolui na área econômica, a família também avança na área ambiental. “O uso de pastagem perene, que já alcança 16,4 hectares, ou 75% da área disponível na propriedade, reduziu os problemas com erosão de solo e também o escoamento de água com resíduos da produção, que iam parar nos cursos de água”, destaca o extensionista Ademilso.

Em 2025, as conquistas e a evolução da propriedade seguiram em ritmo acelerado. A família construiu uma sala de espera de 100m² para os animais e dois silos para silagem – parte desse investimento veio do Programa Financia Leite SC, da Secretaria de Agricultura de Pecuária. Os resultados de produção do ano refletem todo o esforço investido na atividade: foram produzidos 295 mil litros de leite, somando uma renda bruta próxima de R$750 mil. “Em relação aos custos de produção, houve uma redução de 10% nos últimos cinco anos”, acrescenta Ademilso.
Extensão rural e transformação
Com extensionistas presentes em todos os municípios catarinenses, a Epagri é o braço do Governo do Estado para que as famílias rurais e da pesca acessem políticas públicas com juro zero e valores reduzidos. Atuando junto às famílias, esses profissionais identificam as necessidades e, num trabalho de parceria, elaboram os projetos de crédito para que os investimentos nas propriedades virem realidade.
Só em 2025, os projetos de crédito rural elaborados pela Epagri beneficiaram 10,9 mil agricultores, viabilizando R$610 milhões em investimentos. Esse dinheiro, aplicado nas propriedades rurais, se transformou em modernização, insumos e melhorias nas estruturas das atividades produtivas.

Para a família Siqueira, o apoio financeiro foi o impulso que ajudou a evoluir de forma mais rápida. “Consideramos importantes todos os investimentos feitos através das políticas públicas. Eles são sem juros, ou até com redução do valor, e com pagamento por ano. Isso facilita bastante o pagamento e o nosso dia a dia, porque vamos usufruindo desses investimentos”, destaca Darvilete.
Sucessão familiar
Todos os avanços na propriedade foram acompanhados de perto, desde criança, pelo filho Jacson, que hoje tem 21 anos. Em 2023, ele deu um passo importante como futuro agricultor: participou do curso Ação Jovem Rural no Centro de Treinamento da Epagri de Campos Novos, onde adquiriu ferramentas de gestão e inovação para aplicar no dia a dia da propriedade.

Depois do curso, Jacson ainda se aperfeiçoou em um curso técnico em Zootecnia, já que o plano é assumir os negócios da família. Hoje, ele está bem envolvido nas atividades, toma decisões por conta própria e também recebe atendimento da Epagri. “Minhas principais funções na propriedade são a alimentação das vacas e novilhas, manejo das pastagens, fornecimento de silagem e concentrado de acordo com a necessidade, e também manutenção das cercas dos piquetes”, conta.
Para os pais, é gratificante ver que o filho gosta do que faz e está empenhado em progredir na atividade. “Acredito que isso se deve ao fato de ele estar envolvido no planejamento da propriedade e ter liberdade de expor suas ideias”, diz a mãe.
Assim como foi para Jacson, o curso Ação Jovem Rural e do Mar, da Epagri, tem sido determinante para muitos outros jovens decidirem ficar e investir no campo. Desde 2012, a Epagri já capacitou mais de 3,2 mil jovens de 18 a 29 anos, ajudando a mudar o rumo de muitas propriedades com a sucessão familiar. O curso tem duração de um ano e, ao final, o jovem elabora seu projeto de vida, com proposta de melhorias no negócio da família, e recebe apoio financeiro do Governo do Estado.

Darvilete também tem um papel-chave no sucesso da propriedade rural. Formada em Processos Gerenciais, ela agregou um conhecimento fundamental para o planejamento e a eficácia dos investimentos realizados nos últimos anos. Hoje, é responsável pela gestão da atividade leiteira e pelo controle financeiro da família. “Na propriedade, cada um tem um papel principal, porém, todos nós sabemos de tudo o que acontece. Se necessário, todos podem desenvolver qualquer atividade. Juntos planejamos as atividades, os investimentos e os próximos passos que devem ser tomados”, diz.
Crescendo juntos
Hoje, olhando para trás, Darvilete e Jaime se orgulham do que construíram e reforçam que os resultados são fruto de muito aprendizado. “Com o apoio da Epagri, tivemos um avanço muito grande em todos os aspectos da produção de leite: criação de bezerras, controle leiteiro, implantação das pastagens, água e sombra nos piquetes, melhoramento genético e controle de qualidade”, resume Jaime.
Para a família, o extensionista Ademilso é um grande parceiro de caminhada. “Ele tem sido um técnico muito atuante, que ajuda a desenvolver as atividades, avalia os resultados e se preocupa em sempre fazer o melhor para que tudo dê certo. O Ademilso faz parte da evolução da propriedade e também da família”, diz Darvilete.
Essas histórias se replicam em todo o Estado. Em 2025, a Epagri registrou um avanço histórico ao estabelecer escritórios de extensão rural em 100% dos municípios catarinenses. Ao longo do ano, mais de 135 mil produtores foram atendidos por meio de 223 mil ações técnicas, entre cursos, capacitações, dias de campo, visitas técnicas e seminários. Para o diretor de Extensão Rural e Pesqueira da Epagri, Gustavo Claudino, ao estar presente em todo o território catarinense, a empresa garante que cada produtor tenha acesso ao conhecimento, ao crédito e às condições necessárias para prosperar. “É assim que construímos um campo mais forte, mais sustentável e com mais oportunidades”, destaca.

Assim como acontece com cada extensionista da Epagri, Ademilso mede o sucesso do seu trabalho nos resultados das famílias que atende. “Construímos uma amizade, baseada na confiança e no desejo mútuo de ver o bem de todos. Em muitos momentos, sinto-me parte da própria família. A evolução da família Siqueira também é fruto do meu trabalho, então vejo com muito orgulho a trajetória que ela está cursando”, diz.
Sabendo que tem apoio para ir atrás de seus sonhos, a família Siqueira segue fazendo planos. Com o aumento da renda e também da qualidade de vida, agora eles planejam construir uma casa dentro do próprio terreno, já que ainda moram em uma vila rural a 2km da propriedade. Na produção de leite, a meta é subir dos 12.500 litros por hectare para 18 mil. Se em dez anos de parceria com a Epagri eles já foram tão longe, quem duvida do que ainda podem alcançar?
Cinthia Andruchak Freitas – Jornalista