Epagri – Balanço Social

Reportagens

Natureza como aliada: bioinsumos abrem caminho nas pesquisas da Epagri

No caminho que a ciência trilha na agricultura, produzir em harmonia com a natureza ganha um significado cada vez mais enraizado: não é apenas preservar, mas colocar produção e conservação lado a lado, uma a serviço da outra. Nessa missão, os bioinsumos, ou insumos agrícolas de origem biológica, são uma linha de pesquisa cada vez mais importante dentro da Epagri. O objetivo é substituir os insumos químicos pela “força da natureza”, usando essa e outras ferramentas para alcançar o equilíbrio perfeito.

Bioinsumos são produtos, processos e tecnologias de origem vegetal, animal ou microbiana utilizados na agricultura para promover produção, proteção, armazenamento e beneficiamento de produtos agropecuários. Esses produtos podem ser biodefensivos, biofertilizantes, bioestimulantes e bioinoculantes. A Epagri tem trabalhos bem adiantados em algumas dessas áreas, que já trazem resultados expressivos para o agro catarinense, e em outras segue em fase de estudo, mas com a promessa de revolucionar, em breve, o manejo de algumas culturas agrícolas.

 

Bioinsumo para arroz irrigado

Um exemplo é o primeiro bioinsumo para controle biológico de praga do arroz irrigado em Santa Catarina, desenvolvido na Estação Experimental da Epagri em Itajaí. O produto, que deve entrar no mercado até a safra 2027/28, é um fungo do gênero Beauveria que ataca o percevejo do grão, a maior praga das lavouras de arroz irrigado no Estado.

O primeiro passo dessa tecnologia foi a descoberta do entomologista Eduardo Hickel em seus experimentos na Epagri. Ele percebeu que, no período de dormência do arroz, durante a entressafra, os insetos morriam envoltos por um fungo. Esse fungo foi identificado e, nas mãos de um time de pesquisadores, partiu para um longo período de testes em laboratório e, depois, em campo.

 

Fungo que ataca o percevejo do grão é o primeiro bioinsumo para controle biológico do arroz irrigado em Santa Catarina (Foto: Epagri/EEI)

 

A importância desse bioinsumo chamou a atenção do setor produtivo. Por isso, a Urbano Alimentos, de Jaraguá do Sul, entrou como co-patrocinadora da pesquisa, junto com as cooperativas Cooperja, Coopersulca e CooperJuriti. O produto está, agora, na fase de estabelecimento do modelo de negócios e acordo comercial. A empresa que deve desenvolver o produto a partir da cepa do microrganismo é a paulista Ballagro.

Em breve, substituindo o uso de inseticida pelo bioinsumo, os rizicultores poderão diminuir o custo de produção das lavouras, melhorar a qualidade do grão e reduzir o risco de contaminação da água e do solo, o que poderá abrir novos mercados para o arroz catarinense. O uso excessivo de defensivo agrícola prejudica o desempenho comercial do arroz em mercados exigentes como a União Europeia e os Estados Unidos, que já devolveram lotes com resquícios de inseticida.

 

Natureza como ingrediente

Em Chapecó, no Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar (Cepaf), o pesquisador Leandro do Prado Ribeiro e sua equipe se dedicam a buscar “ingredientes” da natureza com potencial para se tornarem bioinsumos. O trabalho, inicialmente voltado para o controle de pragas em pastagens, gerou um banco de fungos entomopatogênicos (ou seja, que causam doenças em insetos), coletados em diferentes regiões de Santa Catarina. Hoje, eles são avaliados para aplicação em diferentes culturas agrícolas.

 

Pesquisador Leandro do Prado Ribeiro estuda microrganismos com potencial para se tornarem bioinsumos (Foto: Helena de Moraes – bolsista Epagri/Fapesc)

 

O objetivo é avaliar o potencial desses microrganismos não apenas como agentes de controle biológico de pragas em lavouras, mas também identificar outras funções, como promoção de crescimento vegetal e indução de resistência em plantas. “Alguns desses materiais têm despertado o interesse da iniciativa privada. Um dos isolados de fungos entomopatogênicos selecionados em nosso programa de pesquisa está em fase de licenciamento para uma empresa de produtos biológicos”, diz Ribeiro.

O pesquisador avalia que Santa Catarina tem muito a avançar nessa área. E o mercado é promissor: o Brasil é considerado líder global na produção e no uso de bioinsumos, com taxa de adoção superior a 50% entre os produtores e crescimento anual que varia entre 15% e 20%. No segmento de biodefensivos, os produtos biológicos já representam cerca de 6% do mercado de defensivos agrícolas, de acordo com a CropLife Brasil.

 

Fertilizar com organismos vivos

Na receita do biofertilizante aeróbico criado pela Epagri, os ingredientes também foram alvo de muitas pesquisas, mas estão ao alcance de qualquer agricultor. A tecnologia, barata, sustentável e de fácil acesso, dá o caminho para obter um produto ideal para a agricultura orgânica, que promove o crescimento das plantas e as protege contra pragas e doenças.

O biofertilizante é resultado de um processo fermentativo aeróbico (com presença de oxigênio) de materiais orgânicos em meio líquido. Na tecnologia da Epagri, materiais como esterco, farinha de peixe, cascas de camarão, farelo de arroz, amido de milho e açúcar se transformam em biofertilizante aeróbico em apenas seis dias.

 

Unidade Portátil de Produção de Biofertilizante Aeróbico permite ao agricultor fabricar o próprio bioinsumo (Foto: Epagri/EEI)

 

Para que os agricultores possam fabricar o bioinsumo em suas propriedades, a Epagri lançou, em 2022, a Unidade Portátil de Produção de Biofertilizante Aeróbico (UPPB), cuja cartilha está disponível para download gratuito. “De nada adianta falar de biofertilizante aeróbico se o produtor não conseguir fazer de forma correta e com as quantidades desejadas em sua propriedade”, justifica Alexandre Visconti, pesquisador da Epagri na Estação Experimental de Itajaí (EEI). A UPPB é fácil de construir: utiliza materiais como bombona plástica de 200 litros, bomba de máquina de lavar roupas, canos e conexões de PVC. Já são mais de 250 produtores utilizando essa tecnologia na produção de hortaliças.

 

Resíduo que vira produto

A fórmula do biofertilizante da Epagri dá um destino nobre e útil aos resíduos da indústria pesqueira. Em vez de se tornarem um passivo ambiental e irem parar em aterros sanitários, as cascas de camarão e os restos de peixe são transformados em um material riquíssimo para a agricultura, fechando um ciclo sustentável perfeito.

 

Lavoura de pimentão adubada com o biofertilizante aeróbico da Epagri (Foto: Epagri/EEI)

 

O uso de resíduos marinhos não é por acaso: no processo aeróbico, eles estimulam a multiplicação de microrganismos que se “alimentam” de quitina — o mesmo material que forma a estrutura de proteção de fungos e pragas nocivos às plantas. O biofertilizante ainda fornece macro e micronutrientes, como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, boro, zinco e ferro, além de substâncias que auxiliam no desenvolvimento e na resistência das plantas e uma alta carga de comunidades microbianas benéficas.

 

Compostagem em agroindústrias

Outro caminho para transformar resíduos em bioinsumos de alta qualidade para a agricultura é a compostagem. A Epagri trabalha há décadas com essa prática e, hoje, pesquisa e desenvolve tecnologias para dar destino adequado aos resíduos de agroindústrias.

Em parceria com a Pamplona Alimentos, a Epagri desenvolveu um sistema de compostagem mecanizada para os resíduos de abate de suínos. O sistema transforma, mensalmente, cerca de 200 toneladas de resíduos em 100 toneladas de fertilizante sólido para uso na produção de alimentos, inclusive em cultivos orgânicos.

 

A Epagri desenvolve sistemas para transformar resíduos de agroindústrias em biofertilizantes de alta qualidade (Foto: Epagri/EEI)

 

A compostagem absorve todos os resíduos dos frigoríficos da Pamplona em Rio do Sul e Presidente Getúlio, além das fábricas de ração, cinzas de caldeira e das criações de suínos. O sistema é conduzido em um galpão, onde uma máquina faz o revolvimento automatizado dos resíduos. Em 90 dias, a compostagem proporciona o desenvolvimento de bactérias que decompõem o material e o transformam em adubo.

Em outro projeto, em parceria com o Frigorífico São João, de São João do Itaperiú, a Epagri está desenvolvendo um sistema de compostagem automatizado de resíduos do abate bovino que poderá ser usado em empreendimentos de diferentes portes. “Estamos realizando os ajustes finais e já estamos obtendo um composto orgânico com características promissoras para amplo uso na produção de alimentos”, revela Rafael Cantú, pesquisador da Epagri na Estação Experimental de Videira. Nesse empreendimento, cerca de 150 toneladas de resíduos se transformam, mensalmente, em mais de 50 toneladas de fertilizante – e o potencial é de incremento na produção ainda neste ano.

 

Compostagem para resíduos de cana-de-açúcar é uma das soluções criadas pela Epagri (Foto: Epagri/EEI)

 

Para empreendimentos de pequeno porte, pesquisadores e extensionistas da Epagri desenvolveram e melhoraram diversos sistemas de compostagem em menor escala. Entre eles, sistemas para produtores de ovos na região de Joinville e Itajaí, de mudas de flores e hortaliças em Blumenau, de palmito para conserva no Litoral Norte do Estado e de derivados da cana-de-açúcar em Joinville.

Cantu explica que, além de fornecer nutrientes para as plantas, o uso desses fertilizantes aumenta a fixação do carbono no solo. “Isso proporciona inúmeros benefícios, como melhor aproveitamento dos nutrientes e promoção da saúde das plantas, melhorando aspectos químicos, físicos e biológicos do solo”, detalha. 

 

Plantas que são ferramentas

Se o assunto é melhorar o solo, a Epagri tem uma das tecnologias que mais crescem nas lavouras de Santa Catarina. Embora não sejam classificadas como bioinsumos no sentido legal (por não se enquadrarem na Lei 15.070/24), as plantas de cobertura prestam uma série de serviços ecossistêmicos para as lavouras. Vivas ou em forma de palha sobre o solo, elas funcionam como ferramentas para o agricultor, realizando processos que podem substituir ou complementar o uso de insumos químicos sintéticos.

 

Vivas ou em forma de palha sobre o solo, as plantas de cobertura realizam uma série de serviços para as lavouras (Foto: Juliane Justen/Epagri)

 

A lista de serviços é extensa. Entre eles, estão o controle da erosão, a regulação da temperatura, o aumento gradual dos teores de matéria orgânica, a recuperação de nutrientes de camadas profundas para a superfície do solo, a fixação de nitrogênio no solo (no caso das leguminosas), o manejo de pragas e plantas daninhas, o fornecimento de pólen e néctar para as abelhas e a redução da compactação do solo, tornando-o poroso para a infiltração de água e a circulação de ar.

As plantas de cobertura também são essenciais para fixar carbono no solo porque produzem massa vegetal em grande quantidade. Quando essa massa se decompõe, parte do carbono retorna à atmosfera e parte fica no solo. “Em sistemas agrícolas que utilizam regularmente plantas de cobertura, é possível aumentar gradualmente os estoques de carbono orgânico, melhorar a estrutura e a fertilidade do solo e contribuir para estratégias de mitigação das mudanças climáticas”, explica a extensionista rural Juliane Knapik Justen. 

 

Tecnologia na mão do agricultor

Essa tecnologia está disponível na publicação “Plantas para adubação verde e cobertura do solo”, que pode ser baixada gratuitamente no site da Epagri. O documento é uma espécie de manual que permite recomendar espécies para diferentes objetivos. Também é possível acessar a tecnologia via aplicativo, dentro da plataforma EpagriMob, onde o conteúdo aparece em formato interativo.

No material, os usuários encontram as características botânicas, fenológicas, agronômicas e as recomendações técnicas para o cultivo de 44 espécies de plantas de cobertura nas condições de Santa Catarina. Desse total, 28 espécies são de primavera-verão e 16 são de outono-inverno.

 

Plantio direto é uma das práticas que mais crescem nas lavouras de Santa Catarina (Foto: Aires Mariga/Epagri)

 

O uso de plantas de cobertura em Santa Catarina é difundido principalmente em lavouras que adotam o Sistema Plantio Direto de Grãos (milho, soja, feijão e trigo), Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária, Sistema Plantio Direto de Hortaliças e produção de cultivos perenes, como a fruticultura, em que as plantas de cobertura são cultivadas nas entrelinhas. De acordo com o Balanço Social da Epagri, a área total em plantio direto de grãos como soja, milho, feijão e trigo em Santa Catarina é de aproximadamente 1,2 milhão de hectares.

 

O futuro é produzir melhor

Em 2025, a Epagri completou 50 anos de experiência acumulada em pesquisa agropecuária em Santa Catarina, projetando um futuro em que a ciência e a natureza atuem cada vez mais em conjunto. O foco está em inovações que ajudem os produtores a enfrentar as mudanças climáticas e reduzir os custos de produção. O desenvolvimento de bioinsumos, usando as “forças da natureza” como aliadas, é um pilar para adaptar a agricultura a esses novos desafios, produzir alimentos limpos e de qualidade para a população e tornar a interação com o meio ambiente cada vez mais equilibrada. Porque fazer agricultura não é produzir mais: é produzir melhor.